| MÉXICO - 1970 |

Países inscritos: 70
Participantes: 16
Gols: 95
Média de gols: 2,97
Média de público: 52.312
Para compreender o processo que culminou na escolha de João Saldanha, é preciso levar em conta tudo o que aconteceu no futebol brasileiro a partir do desastre de 1966. O fracasso na Copa da Inglaterra gerara um clima de desconfiança ou, no mínimo, de indiferença. Então, era preciso um líder para virar o jogo. Esse líder era João - com todos os riscos que os dirigentes conheciam, mas se viam obrigados a enfrentar, na tentativa de eles mesmos saírem do isolamento.
Logo nos primeiros dias, Saldanha mostraria que numa coisa os dirigentes haviam acertado: ele era, de fato, o homem capaz de realizar a virada de jogo com que todos sonhavam. No mesmo dia do "topo", Saldanha definia seu time, formado por Félix, Carlos Alberto, Brito, Djalma Dias, Rildo, Piazza, Gérson, Dirceu Lopes, Jair, Pelé e Tostão. No segundo time entravam Lula, Zé Maria, Scala, Joel, Everaldo, Clodoaldo, Rivelino, Paulo César, Paulo Borges, Toninho e Edu. Estava restabelecida a confiança. E ela iria crescer à medida que se desenvolviam as eliminatórias. O Brasil enfrentou sucessivamente - em seis jogos ao todo - as seleções da Colômbia, da Venezuela e do Paraguai. Marcou 23 gols e sofreu apenas dois.
Mas logo se manifestariam os choques que o levariam, gradativamente, a uma situação de total isolamento. Para isso concorreram muitos fatores: problemas técnicos, ressentimentos pessoais; e também o nervosismo e a instabilidade de um homem que assumira a sobrecarga de todo o esforço de recuperação do futebol brasileiro. Ao iniciar sua segunda fase no comando da Seleção, o treinador encontrava dois problemas concretos, difíceis ou impossíveis de solucionar a curto prazo. Um: o descolamento de retina sofrido por Tostão; ninguém sabia quando ele voltaria a jogar ou se, algum dia, ainda iria mostrar o mesmo futebol que o consagrara na fase eliminatória. Outro fato era que o time não tinha ainda um padrão de jogo inteiramente definido.
Essa insuficiente consistência técnica ficou bem clara no jogo entre Brasil e Argentina, no dia 8 de março de 1970, no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Os argentinos ganharam por 2 x 1. O time brasileiro jogou mal. A crise começa. Antônio do Passo - o mesmo que o convidara Saldanha - se afasta dele. Depois vêm os desentendimentos com o preparador físico Admildo Chirol e o médico Lídio Toledo. Por último, o escândalo provocado pela versão do médico de que Pelé estaria sofrendo de "acentuada miopia". Em 14 de março de 1970, a Seleção disputou um jogo treino contra o Bangu e não passou de um empate por 1 a 1. Na mesma noite, Antônio do Passo comunicou a João Havelange que estava se demitindo da sua função de diretor de futebol da CBD. Saldanha ainda duraria quatro dias no posto. Enfraquecido e isolado. No dia 17, João Saldanha vai dirigir seu último treino, no Itanhangá. É nesse dia que escala um time sem Pelé. À noite, mais uma reunião na CBD. Havelange anuncia a dissolução da comissão técnica.
Zagallo diz ‘‘sim’’
No dia 18 de março verifica-se que, da comissão técnica, só Saldanha e Adolfo Milman haviam sido afastados. Os outros continuam. Chirol dirige o treino. Procura-se um técnico. A nova fase da Seleção Brasileira começa no dia 18 de março de 1970, com acentuado sabor de romance policial. Chirol dirige o treino, a CBD está à procura de um técnico. No interior do seu Opala, Zagallo recebe o convite de Antônio do Passo. Zagallo aceita imediatamente.
Zagallo começou com altos e baixos. Em matéria de tática, preservava sua tradicional teimosia, na inclinação por um futebol sem grandes rasgos ofensivos. Mas dava provas de habilidade - ou de flexibilidade - ao fazer as novas convocações: juntamente com Leônidas, Roberto e Arílson, era chamado Dario, que não encontrara lugar nos escolhidos de Saldanha.
Sob muitos aspectos, a seleção de 1970 é a primeira demonstração de uma atitude racional em relação ao futebol. A preparação física é bem dosada. Muitos a criticaram, na época. Mas é graças a ela que os jogadores chegarão à fase final em excelente condição. A programação para vencer os rigores de altitude das cidades onde se desenvolveriam os jogos da Copa talvez tenha sido a mais perfeita. Em Irapuato e Guanajuato, os brasileiros tiveram o necessário período de adaptação.
Espírito de luta
O jogo de estréia, contra a Tchecoslováquia, ilustra bem esses aspectos positivos da nossa preparação. Os europeus eram considerados adversários perigosos não só pela boa técnica de seu futebol, mas também por causa do que se apregoava como um quase insuperável trabalho de preparação física. No entanto, eles não tiveram recursos técnicos para segurar a vantagem inicial, conseguida graças ao gol de Petras. E, no segundo tempo, o que se viu foi o cansaço dos tchecoslovacos - enquanto os brasileiros conservavam o mesmo ritmo e o mesmo fôlego. Resultado: 4 x 1 para o Brasil.
Superada a Tchecoslováquia, o Brasil tinha de enfrentar a Inglaterra. Foi um jogo sofrido, em que a vitória poderia ter pendido para um lado ou para o outro. Acabou sendo nossa, mais pelo espírito de luta do que em virtude de uma suposta superioridade técnica.
Um espírito de luta que pode ser representado pela atitude de Carlos Alberto. No início do segundo tempo - ainda com um empate em zero -, o inglês Lee deu uma entrada feia em Everaldo. Mais tarde, entraria sobre o goleiro Félix - sem que o juiz Abraham Klein se decidisse a tomar uma atitude mais enérgica. Então, aos 36, foi a vez de Carlos Alberto entrar firme - e feio - sobre Lee. Em condições normais, esse não seria um procedimento aceitável. Mas, na circunstância, representava, ao menos, a disposição para a luta. Com uma terceira e sofrida vitória sobre a Romênia, os brasileiros passavam às quartas-de-final. A mesma sorte tinham, no Grupo 3, os ingleses.
Nos demais grupos, não haveria grandes surpresas. México e União Soviética eram os ganhadores no Grupo l. No 2, Itália e Uruguai. No 4, Alemanha e Peru. Itália, Uruguai, Brasil e Alemanha foram os que chegaram às semifinais. A Itália venceu o México com absoluta tranqüilidade; sem dúvida, mandara à Copa uma seleção capaz de lembrar os bons tempos da Squadra Azzurra. Muito mais dramáticas foram as vitórias do Uruguai sobre a União Soviética e da Alemanha sobre a Inglaterra, ambas obtidas na prorrogação.
O Brasil derrotou o Peru num jogo nervoso, movimentado. Afinal, o técnico dos peruanos era Didi. E o inventor da "folha seca" se julgava capaz de uma nova invenção: a da armadilha infalível em que cairia a Seleção Brasileira. A armadilha não funcionou, em parte porque o goleiro Rubiños não dava a menor tranqüilidade aos seus companheiros; e no fundo porque nenhum técnico é capaz de transformar da noite para o dia um país pobre em futebol numa superpotência futebolística.
Vieram as semifinais. Itália e Alemanha jogaram intermináveis 120 minutos de uma partida cheia de emoção. Uma partida heróica, em que os jogadores se superaram numa luta além dos razoáveis limites da resistência física. No fim, 4 x 3 para a Itália. Uma guerra no campo. Longe dali, em Guadalajara, essa guerra começara bem antes.
Festa no Azteca
Com o Brasil e o Uruguai em disputa das semifinais, reaviva-se toda a mística da rivalidade antiga. O jogo, afinal, foi mais fácil do que se pensava. A Seleção Uruguaia estava bem longe do poderio da Celeste de 1950. E, por mais garra que tivesse, não tinha condições técnicas para sustentar a vantagem inicial obtida com um gol de Cubilla.
Faltava apenas a final, a grande festa para a qual se construíra o Estádio Azteca. Brasil e Itália também têm uma rivalidade - bem mais remota, recordação da Copa de 1938 - a animar o espetáculo. E o primeiro tempo - 1 x 1, gols de Pelé e Boninsegna - parece confirmar a expectativa de um jogo terrível. Mas, no segundo tempo, há sinais de esgotamento do lado italiano: afinal, a partida com os alemães minara-lhes a resistência. E há, de outro lado, o rendimento cada vez maior dos brasileiros, com Gérson indo mais à frente, com o ataque fazendo jogadas sempre perigosas, crescendo com o andamento do jogo. Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto liquidam a fatura: 4 x 1. Brasil campeão, pela terceira vez.
Estava encerrada a campanha mais gloriosa do Brasil nas Copas do Mundo. E talvez a mais brilhante.

Nascimento: 3 de novembro de 1945, em Zinsen
Clubes: Nördlingen, Bayern de Munique, Fort Lauderdale Strikers-EUA e Smith Brother Lounge-EUA
É o jogador que fez mais gols em Copas do Mundo (10 em 1970 e 4 em 1974). Relativamente baixo paraum atacante (1,74 m), primava pelo oportunismo e bom posicionamento na área. Foi um dos ícones da geração do Bayern de Munique e da Alemanha Ocidental dos anos 70. Ao abandonar a carreira, no futebol dos Estados Unidos, abriu um bar e sofreu com o alcoolismo. Teve seu tratamento bancado por Franz Beckenbauer.