| ARGENTINA - 1978 |

Países inscritos: 100
Participantes: 16
Gols: 102
Média de gols: 2,68
Média de público: 40.566
Brasil polêmico
Desde o melancólico quarto lugar na Copa de 1974, o futebol tornara-se um assunto peculiarmente polêmico no país tricampeão do mundo. Desta vez, não se falava tanto na convocação ou não deste ou daquele jogador, no sistema de jogo a ser adotado pelo técnico, no clubismo ou no regionalismo que tradicionalmente temperava as alterações mais apaixonadas. Nos quatro anos que separaram a Copa do Mundo da Alemanha Ocidental da Copa da Argentina, no centro das discussões brasileiras estiveram, mais do que qualquer coisa, uma filosofia e um nome, uma espécie de nova ordem e seu profeta. O nome, o profeta dessa nova ordem: Cláudio Coutinho.
Muita coisa mudara no futebol brasileiro depois de 1974. Uma intervenção velada na Confederação Brasileira de Desportos pusera fim ao longo reinado de João Havelange e indicara para seu lugar, como novo todo-poderoso da entidade - e, conseqüentemente, da Seleção Brasileira - o almirante Heleno Nunes, presidente da Arena, partido do governo, no estado do Rio de Janeiro. Coube a Osvaldo Brandão substituir Zagallo como técnico. Embora experiente, conhecedor do ofício e disposto a contribuir para que o defensivismo do seu antecessor se transformasse num capítulo definitivamente encerrado, Brandão não teve fôlego e sorte para chegar até 1978 como comandante do barco brasileiro.
Para o lugar de Brandão, Cláudio Coutinho. Desde o início ficaram nítidas as diferenças entre um e outro. O novo técnico trazia para a Seleção uma proposta tão nova quanto discutível. A fase do futebol individualista, segundo Coutinho, passara. O exemplo coletivista que vinha da Europa devia ser seguido por uma Seleção Brasileira que, em 1974, fracassara justamente por não estar em dia com a filosofia polivalente adotada, por exemplo, por alemães ocidentais e holandeses, não por acaso os finalistas daquela Copa. "Polivalência" foi exatamente o primeiro novo termo que Coutinho incorporou ao vocabulário do futebol brasileiro. Outros se seguiriam, novidades que deram certo no restante das eliminatórias, nas quais, disputando uma vaga com colombianos e paraguaios, os brasileiros conseguiriam classificar-se.
Bandeiras e granadas
A Copa do Mundo de 1978 foi festivamente inaugurada na tarde de 1º de junho, com o empate de 0 x 0 entre Alemanha Ocidental e Polônia, jogo válido pelo Grupo 2, em que os dois países confirmariam seu favoritismo na luta pelas duas vagas com o México e a Tunísia. Como a fazer parte da paisagem argentina daqueles dias - fosse em Buenos Aires, fosse nas sub-sedes de Mar del Plata, Córdoba, Rosário e Mendoza - o estádio do River Plate, já no jogo inaugural, exibiu entre bandeiras, balões de gás, estandartes coloridos, um verdadeiro exército armado de granadas e metralhadoras, parte do esquema de segurança cuidadosamente montado pelo próprio governo. De qualquer forma, não ao aparato de segurança, mas quase tudo contribuiu para que um clima nervoso cercasse a esperada estréia da Argentina, também no estádio do River Plate, diante da Hungria.
Sob o peso de tanta responsabilidade, os jogadores argentinos estrearam de forma um tanto hesitante. E, não fosse a ajuda providencial do juiz português Silva Garrido (rigoroso na expulsão de dois jogadores húngaros), eles não teriam começado com uma vitória de 2 x 1. Triunfo, por sinal, importantíssimo na definição do Grupo 1, um dos mais equilibrados das oitavas-de-final. Nele, enquanto a Itália se classificava com três vitórias (uma delas o 1 x 0 que deixou frustrados milhões de argentinos), a equipe da casa obtinha a segunda vaga numa renhida disputa com a Hungria e com a excelente França, a quem a sorte não ajudou.
No Grupo 4, o surpreendente Peru e a desfalcada Holanda (o super-astro Johann Cruijff foi o grande ausente da competição) classificaram-se no confronto com o tímido Irã e a tumultuada Escócia, cuja presença na Copa foi marcada, principalmente, por um pequeno escândalo: o caso de doping que envolveu seu famoso atacante Johnstone.
No Grupo 3, o Brasil. As duas primeiras rodadas, de pouco futebol e poucos gols, serviram, entre outras coisas, para revelar o quanto as incertezas de Coutinho tinham resultado numa seleção vaga, amorfa, apática e indefinida. Nem polivalência, nem brilho individual. O empate de 1 x 1 com a Suécia, na estréia em Mar del Plata, foi desapontador. No segundo jogo, outro empate decepcionante, desta vez de 0 x 0 com a Espanha. Novas indefinições: Nelinho definitivamente convertido em atacante, embolando-se com Toninho pela direita, Jorge Mendonça lançado na esperança de um milagre, Rivelino descartado, Dirceu efetivado. E os gols? O Brasil chegou à terceira rodada dois pontos atrás da Áustria, um à frente da Espanha e da Suécia, a classificação ameaçada.
Foi então que o almirante entrou em cena. Numa conversa a portas fechadas com Coutinho - o dirigente exaltado, o técnico perdido em suas dúvidas, imprensa do lado de fora aguardando -, um novo time surgiu. Nele, o goleador Roberto Dinamite, Rodrigues Neto e Jorge Mendonça. Dois dias depois, o Brasil vencia a Áustria por 1 x 0, gol de Roberto Dinamite, e os dois países se classificavam, ficando de fora Suécia e Espanha.
Na fase semifinal, como acontecera em 1974, os oito países que haviam passado pelas oitavas foram divididos em dois grupos de quatro. O grupo A teve difícil, complicado e dramático desfecho. A Itália, que vinha brilhando com sua equipe inspirada no talento de Bettega, Causio, Rossi, era apontada pelos experts como a provável finalista. No entanto, a recuperação da Holanda contrariou tal prognóstico. Vencendo a própria Itália, goleando a Áustria e empatando com a Alemanha Ocidental, os holandeses chegavam, pela segunda vez consecutiva, à decisão da Copa.
Mais difícil, complicado e dramático ainda foi o desfecho do Grupo B. Brasil e Argentina estrearam com boas vitórias, respectivamente, sobre o Peru (3 x 0) e a Polônia (2 x 0). Na segunda rodada, enquanto os poloneses derrotavam os peruanos, Brasil e Argentina faziam em Rosário aquele que se antecipava como o jogo que iria indicar o outro finalista. Mas 0 x 0 não decidiu nada. Ficou tudo adiado para o dia 21 de junho, quando, com igual número de pontos, brasileiros e argentinos enfrentariam poloneses e peruanos, em Mendoza e Rosário, respectivamente. Contudo, por uma anomalia no regulamento, esses dois jogos realizaram-se em horários diferentes, o dos brasileiros três horas mais cedo que o dos argentinos.
Campeão moral
A Seleção de Coutinho - ou do almirante - cumpriu contra a da Polônia a sua melhor atuação naquela Copa, ao sair de um incômodo empate de 1 x 1, no primeiro tempo, para uma espetacular vitória de 3 x 1 no final. Com este resultado, os brasileiros tinham motivos de sobra para se sentir otimistas. No jogo que se iniciaria dali a uma hora, os argentinos teriam de vencer os peruanos por uma diferença mínima de quatro gols para conseguir ganhar a briga pelas honras de finalistas. Mas a lógica foi por terra. Precisando vencer de quatro, os argentinos venceram de seis um bando de jogadores peruanos desinteressados, frios, ingênuos e surpreendentemente omissos.
Desse modo, a festa argentina continuou. E mais: teve uma alegre, colorida, ruidosa e emocionante apoteose quando a Seleção de Menotti, depois de empatar em 1 x 1 no tempo normal, foi para a prorrogação contra os holandeses na final e, com gols de Bertoni e Kempes, este o grande herói da jornada, sagrou-se campeã do mundo.
Na véspera, o Brasil vencera a Itália por 2 x 1, no jogo pelo terceiro lugar terminando invicto sua campanha, feito que levou os brasileiros a se auto-proclamarem "campeões morais", como consolo.

Nascimento: 15 de julho de 1954, em Bell Ville
Clubes: Rosario Central, Valencia-ESP, River Plate, Tottenham Hotspur-ING, Hércules-ESP, First Viena-AUT, Sankt Polten-AUT, Krems-AUT e Arturo Fernández Vial-CHI
Teve um início de carreira bastante precoce para a época. Aos 24 anos, já era campeão mundial pela Argentina, artilheiro da Copa e goleador de duas edições do campeonato espanhol. A partir da década de 1980, entrou em decadência e não se estabilizou em nenhum clube. Encerrou a carreira em 1992, mas voltou em 1995 depois de receber um convite de um time da Segunda Divisão chilena.