ARGENTINA - 1978
A Argentina realiza seus sonhos


Campeão:
Argentina
Vice:
Holanda
Ficha técnica
Sede: Argentina
Países inscritos: 100
Participantes: 16
Gols: 102
Média de gols: 2,68
Média de público: 40.566
Desde 1928, quando decidiram com os uruguaios o torneio olímpico de Amsterdã, os argentinos vinham querendo sediar a Copa do Mundo. Tinham sido preteridos em 1930, não tiveram força política bastante para superar a candidatura italiana em 1934, não foram sequer considerados em 1938. De 1950 a 1974, voltaram a insistir, com impressionante teimosia. Ouvidos, ignorados, não levados a sério e até boicotados, foram perdendo uma a uma cada tentativa de ver reconhecido um direito que julgavam possuir em nome de algo que um dia o extraordinário Alfredo Di Stefano, argentino de nascimento, espanhol por opção, cidadão do mundo por sua genialidade, definiu em três palavras: amor ao futebol. "Este povo merece a Copa do Mundo. Senão pelos grandes jogadores que lá nasceram, pelo menos por seus torcedores, velhos, moços, pibes, que talvez gostem mais de futebol do que os ingleses até então haviam gostado", disse Di Stefano.

Brasil polêmico
Desde o melancólico quarto lugar na Copa de 1974, o futebol tornara-se um assunto peculiarmente polêmico no país tricampeão do mundo. Desta vez, não se falava tanto na convocação ou não deste ou daquele jogador, no sistema de jogo a ser adotado pelo técnico, no clubismo ou no regionalismo que tradicionalmente temperava as alterações mais apaixonadas. Nos quatro anos que separaram a Copa do Mundo da Alemanha Ocidental da Copa da Argentina, no centro das discussões brasileiras estiveram, mais do que qualquer coisa, uma filosofia e um nome, uma espécie de nova ordem e seu profeta. O nome, o profeta dessa nova ordem: Cláudio Coutinho.

Muita coisa mudara no futebol brasileiro depois de 1974. Uma intervenção velada na Confederação Brasileira de Desportos pusera fim ao longo reinado de João Havelange e indicara para seu lugar, como novo todo-poderoso da entidade - e, conseqüentemente, da Seleção Brasileira - o almirante Heleno Nunes, presidente da Arena, partido do governo, no estado do Rio de Janeiro. Coube a Osvaldo Brandão substituir Zagallo como técnico. Embora experiente, conhecedor do ofício e disposto a contribuir para que o defensivismo do seu antecessor se transformasse num capítulo definitivamente encerrado, Brandão não teve fôlego e sorte para chegar até 1978 como comandante do barco brasileiro.

Para o lugar de Brandão, Cláudio Coutinho. Desde o início ficaram nítidas as diferenças entre um e outro. O novo técnico trazia para a Seleção uma proposta tão nova quanto discutível. A fase do futebol individualista, segundo Coutinho, passara. O exemplo coletivista que vinha da Europa devia ser seguido por uma Seleção Brasileira que, em 1974, fracassara justamente por não estar em dia com a filosofia polivalente adotada, por exemplo, por alemães ocidentais e holandeses, não por acaso os finalistas daquela Copa. "Polivalência" foi exatamente o primeiro novo termo que Coutinho incorporou ao vocabulário do futebol brasileiro. Outros se seguiriam, novidades que deram certo no restante das eliminatórias, nas quais, disputando uma vaga com colombianos e paraguaios, os brasileiros conseguiriam classificar-se.

Bandeiras e granadas
A Copa do Mundo de 1978 foi festivamente inaugurada na tarde de 1º de junho, com o empate de 0 x 0 entre Alemanha Ocidental e Polônia, jogo válido pelo Grupo 2, em que os dois países confirmariam seu favoritismo na luta pelas duas vagas com o México e a Tunísia. Como a fazer parte da paisagem argentina daqueles dias - fosse em Buenos Aires, fosse nas sub-sedes de Mar del Plata, Córdoba, Rosário e Mendoza - o estádio do River Plate, já no jogo inaugural, exibiu entre bandeiras, balões de gás, estandartes coloridos, um verdadeiro exército armado de granadas e metralhadoras, parte do esquema de segurança cuidadosamente montado pelo próprio governo. De qualquer forma, não ao aparato de segurança, mas quase tudo contribuiu para que um clima nervoso cercasse a esperada estréia da Argentina, também no estádio do River Plate, diante da Hungria.

Sob o peso de tanta responsabilidade, os jogadores argentinos estrearam de forma um tanto hesitante. E, não fosse a ajuda providencial do juiz português Silva Garrido (rigoroso na expulsão de dois jogadores húngaros), eles não teriam começado com uma vitória de 2 x 1. Triunfo, por sinal, importantíssimo na definição do Grupo 1, um dos mais equilibrados das oitavas-de-final. Nele, enquanto a Itália se classificava com três vitórias (uma delas o 1 x 0 que deixou frustrados milhões de argentinos), a equipe da casa obtinha a segunda vaga numa renhida disputa com a Hungria e com a excelente França, a quem a sorte não ajudou.

No Grupo 4, o surpreendente Peru e a desfalcada Holanda (o super-astro Johann Cruijff foi o grande ausente da competição) classificaram-se no confronto com o tímido Irã e a tumultuada Escócia, cuja presença na Copa foi marcada, principalmente, por um pequeno escândalo: o caso de doping que envolveu seu famoso atacante Johnstone.

No Grupo 3, o Brasil. As duas primeiras rodadas, de pouco futebol e poucos gols, serviram, entre outras coisas, para revelar o quanto as incertezas de Coutinho tinham resultado numa seleção vaga, amorfa, apática e indefinida. Nem polivalência, nem brilho individual. O empate de 1 x 1 com a Suécia, na estréia em Mar del Plata, foi desapontador. No segundo jogo, outro empate decepcionante, desta vez de 0 x 0 com a Espanha. Novas indefinições: Nelinho definitivamente convertido em atacante, embolando-se com Toninho pela direita, Jorge Mendonça lançado na esperança de um milagre, Rivelino descartado, Dirceu efetivado. E os gols? O Brasil chegou à terceira rodada dois pontos atrás da Áustria, um à frente da Espanha e da Suécia, a classificação ameaçada.

Foi então que o almirante entrou em cena. Numa conversa a portas fechadas com Coutinho - o dirigente exaltado, o técnico perdido em suas dúvidas, imprensa do lado de fora aguardando -, um novo time surgiu. Nele, o goleador Roberto Dinamite, Rodrigues Neto e Jorge Mendonça. Dois dias depois, o Brasil vencia a Áustria por 1 x 0, gol de Roberto Dinamite, e os dois países se classificavam, ficando de fora Suécia e Espanha.

Na fase semifinal, como acontecera em 1974, os oito países que haviam passado pelas oitavas foram divididos em dois grupos de quatro. O grupo A teve difícil, complicado e dramático desfecho. A Itália, que vinha brilhando com sua equipe inspirada no talento de Bettega, Causio, Rossi, era apontada pelos experts como a provável finalista. No entanto, a recuperação da Holanda contrariou tal prognóstico. Vencendo a própria Itália, goleando a Áustria e empatando com a Alemanha Ocidental, os holandeses chegavam, pela segunda vez consecutiva, à decisão da Copa.

Mais difícil, complicado e dramático ainda foi o desfecho do Grupo B. Brasil e Argentina estrearam com boas vitórias, respectivamente, sobre o Peru (3 x 0) e a Polônia (2 x 0). Na segunda rodada, enquanto os poloneses derrotavam os peruanos, Brasil e Argentina faziam em Rosário aquele que se antecipava como o jogo que iria indicar o outro finalista. Mas 0 x 0 não decidiu nada. Ficou tudo adiado para o dia 21 de junho, quando, com igual número de pontos, brasileiros e argentinos enfrentariam poloneses e peruanos, em Mendoza e Rosário, respectivamente. Contudo, por uma anomalia no regulamento, esses dois jogos realizaram-se em horários diferentes, o dos brasileiros três horas mais cedo que o dos argentinos.

Campeão moral
A Seleção de Coutinho - ou do almirante - cumpriu contra a da Polônia a sua melhor atuação naquela Copa, ao sair de um incômodo empate de 1 x 1, no primeiro tempo, para uma espetacular vitória de 3 x 1 no final. Com este resultado, os brasileiros tinham motivos de sobra para se sentir otimistas. No jogo que se iniciaria dali a uma hora, os argentinos teriam de vencer os peruanos por uma diferença mínima de quatro gols para conseguir ganhar a briga pelas honras de finalistas. Mas a lógica foi por terra. Precisando vencer de quatro, os argentinos venceram de seis um bando de jogadores peruanos desinteressados, frios, ingênuos e surpreendentemente omissos.

Desse modo, a festa argentina continuou. E mais: teve uma alegre, colorida, ruidosa e emocionante apoteose quando a Seleção de Menotti, depois de empatar em 1 x 1 no tempo normal, foi para a prorrogação contra os holandeses na final e, com gols de Bertoni e Kempes, este o grande herói da jornada, sagrou-se campeã do mundo.

Na véspera, o Brasil vencera a Itália por 2 x 1, no jogo pelo terceiro lugar terminando invicto sua campanha, feito que levou os brasileiros a se auto-proclamarem "campeões morais", como consolo.

Artilheiro
Kempes (Argentina), 6 gols
Nome completo: Mario Alberto Kempes
Nascimento: 15 de julho de 1954, em Bell Ville
Clubes: Rosario Central, Valencia-ESP, River Plate, Tottenham Hotspur-ING, Hércules-ESP, First Viena-AUT, Sankt Polten-AUT, Krems-AUT e Arturo Fernández Vial-CHI

Teve um início de carreira bastante precoce para a época. Aos 24 anos, já era campeão mundial pela Argentina, artilheiro da Copa e goleador de duas edições do campeonato espanhol. A partir da década de 1980, entrou em decadência e não se estabilizou em nenhum clube. Encerrou a carreira em 1992, mas voltou em 1995 depois de receber um convite de um time da Segunda Divisão chilena.

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