ESPANHA - 1982
Brilhou a Itália de Paolo Rossi


Campeão:
Itália
Vice:
Alemanha Ocidental
Ficha técnica
Sede: Espanha
Países inscritos: 109
Participantes: 24
Gols: 146
Média de gols: 2,8
Média de público: 39.699
A 12ª Copa do Mundo se fez sob o signo da grandiosidade. Do número de participantes - 24 em vez dos tradicionais 16 - aos menores detalhes ligados à organização, tudo foi espetacular, quando não o exagero. Os 24 finalistas foram divididos em seis grupos de quatro, disputando então uma primeira fase na qual se classificariam à fase seguinte os dois primeiros de cada grupo. O acréscimo de oito finalistas em relação ao que tradicionalmente era feito desde 1930 atendia a promessas de João Havelange aos países da África e da Ásia de garantir-lhes maior presença nas finais da Copa.

Medíocre Itália
O Grupo 1, com jogos nas cidades de Vigo e La Coruña, foi o grupo da mediocridade. Nele, um futebol pouco criativo, pouco voltado para o gol, quase ia provocando bocejos no torcedor. A Polônia já não era a mesma das Copas anteriores. O Peru, dirigido pelo mago brasileiro Tim, nada fez. O estreante Camarões, se tinha um bom goleiro no grandalhão N’Kono, denominado "o Iashin africano", não dispunha de outros trunfos. E a Itália, esta foi o próprio retrato da inexpressividade: empatou seus três jogos e só passou à fase seguinte por ter marcado um gol a mais que o debutante Camarões. Na opinião dos jornalistas italianos que acompanharam de perto essa melancólica campanha, o técnico Enzo Bearzot, depois do empate de 1 x 1 com Camarões, deveria reunir seus rapazes e viajar de volta para Roma, de modo a evitar vergonha maior.

O Grupo 2, disputado em Gijón e Oviedo, foi o campeão no quesito zebras: Argélia 2 x 1 Alemanha Ocidental. Mas foi também o grupo da maior farsa. Pois os alemães, depois daquela surpreendente derrota, ficaram em posição difícil, crítica mesmo. Na última rodada, com a Áustria já classificada e o Chile já eliminado, alemães e austríacos se enfrentaram em Gijón num jogo que se supunha dramático para o time de Karl-Heinz Rummenigge. Só suposição. Os alemães marcaram um gol logo aos 10 minutos. E, quando os argelinos torciam por uma reação austríaca, já que o empate seria o bastante para classificá-los, o que se viu foram 80 minutos de um autêntico jogo de compadres - os dois times tocando a bola para os lados, mantendo em banho-maria o 1 x 0 que servia aos alemães.

O Grupo 3, com jogo inaugural em Barcelona, foi o grupo das promessas não cumpridas. Esperava-se muito da Argentina de Diego Maradona. Esperava-se mais, também da Hungria, cuja equipe jovem pretendia reviver, ao menos em parte, a tradição do seu grande futebol. Contudo, mesmo tendo conseguido os 10 x 1 sobre El Salvador, a maior goleada na história das Copas, os húngaros acabaram não passando para a segunda fase. Quem o conseguiu foi a Bélgica, um time apenas aplicado. A Bélgica e, apesar dos pesares, a Argentina.

O Grupo 4, em Bilbao e Valladolid, foi o grupo da ilusão. Para a Inglaterra, principalmente. Rejeitada a sugestão de Keegan, a seleção dirigida por Ron Greenwood chegou à Espanha com muita esperança. "Temos um time tão bom quanto o de 1966", sentenciou Ron. Não era bem assim, mas, de qualquer forma, os ingleses obtiveram três vitórias nos três jogos do seu grupo e encheram de ânimo seus belicosos torcedores, que, quase sempre movidos pelo álcool, agitaram as cidades espanholas por onde passaram.

A segunda força do grupo - classificada para a segunda fase com a Inglaterra - também bebeu de ilusão. Era a França, de Michel Platini, de futebol vistoso mas acadêmico, esforçado mas ingênuo demais para uma Copa do Mundo, embora suficiente para se sair melhor que o da Tchecoslováquia, que não venceu nenhum dos seus três jogos.

O Grupo 4 teve também seu lado insólito, meio chegado ao bizarro. Na partida com a França, o Kuwait do brasileiro Carlos Alberto Parreira, com seus Al-Tarabulsis, Murbaraks e Mahboubs, entrou em campo sonhando com a vitória. Aos 10 minutos do segundo tempo, os franceses tinham chegado fácil aos 3 x 0. O Kuwait marcou um gol e se animou. Os franceses voltaram à frente e fizeram mais um. Nove minutos depois, Bossis marcaria outro quarto gol para a França.

Pobre Espanha
O Grupo 5, em Valência e Zaragoza, foi o da decepção. Pelo menos para a dona da festa, uma Espanha que mandou a campo uma seleção pobre, apática, das mais fracas que se viu num país-sede de Copa do Mundo. Classificou-se - a duras penas e com providenciais empurrões de arbitragem - ao lado da coesa Irlanda do Norte. Iugoslávia, de quem se esperava um pouco mais, e Honduras, outra outsider que pouco de bom mostrou, foram eliminadas.

No Grupo 5, com jogos em Sevilha e Málaga, o Brasil de Telê Santana. O começo brasileiro - uma vitória de 2 x 1 sobre a URSS em Sevilha - foi marcado por uma série de interrogações. A primeira, a própria indefinição da equipe. A segunda, os pontos fracos que ficaram logo evidentes na incrível falha de Waldir Peres no gol soviético, nas indecisões de Luizinho (que acabou cometendo dois pênaltis, aos quais o juiz espanhol Lamo Castilho fez vista grossa), na falta de um homem de frente mais hábil e menos solitário que Serginho.

Um Brasil brilhante
Mas o Brasil venceu e as interrogações foram postas de lado para que se comemorasse ruidosamente a boa estréia. Tinha início o delírio. O entusiasmo não foi menor antes, durante e depois da segunda exibição. Um jogo no qual a Escócia entrou pensando no empate e acabou goleada por 4 x 1. Cinco dias depois, embora a inofensiva Nova Zelândia não preocupasse (um timinho incipiente que tivera de importar bolas da Austrália para poder realizar seus últimos treinos antes de ir para a Espanha), o país preparou-se como que para uma grande decisão. Quatro a zero e novas comemorações incandescentes. Com três vitórias, o Brasil se classificara à segunda fase com a URSS.

Àquela altura, como estava jogando a seleção de Telê? Bem. Ou mais que isso. Mesmo teimando em manter na equipe seus pontos fracos (basicamente os três que haviam jogado mal na estréia, isto é, Waldir Peres, Luizinho e Serginho), Telê conseguira armar um grupo muito próximo do brilhante. Três peças da sua máquina - Falcão, Zico e Sócrates - exibiam em Sevilha um futebol à altura dos tricampeões mundiais de 1970. O Brasil tinha a melhor Seleção da Copa. Sem ponta-direita, com alguns pontos fracos, mas de longe a melhor. E mais: desde 1970, o torcedor brasileiro não tivera tantos motivos para se orgulhar do seu futebol.

Todas as virtudes do Brasil - e seus trunfos para chegar ao título - seriam confirmadas em sua primeira partida da segunda fase: 3 x 1 sobre a Argentina de Diego Maradona. Foi uma bonita exibição, os brasileiros valendo-se de cérebro e coração para se imporem a um adversário tradicional e temido.

O próximo obstáculo era a Itália, que até ali não convencera sequer os próprios italianos. E um simples empate seria o bastante para nos levar às semifinais. Não, ninguém podia imaginar. O jogo estava marcado para o Estádio Sarriá, em Barcelona. Na véspera, enquanto Paolo Rossi e seus companheiros se mantinham firmes na decisão de não falar com a imprensa, os brasileiros estavam tranqüilos e confiantes.

Tragédia do Sarriá
Foi um jogo difícil, muito difícil. É verdade que os italianos tiveram, naquela tarde de 5 de julho, um desempenho que surpreendeu o próprio Bearzot. É verdade, também, que a sorte esteve quase todo o tempo do seu lado (afinal, não há campeão sem sorte). E que o Brasil, ao lado de jogadas raras, obras-primas de Falcão, cometeu alguns erros infantis que resultaram em gols italianos: um passe defeituoso de Cerezo, os avanços desnecessários de Júnior quando o marcador já nos servia, a desatenção dos zagueiros de centro no córner que decidiu o jogo. Só que tudo isso aconteceu de surpresa, mas dentro da mais absoluta normalidade. Os italianos venceram por 3 x 2, com três gols do faccia d’angelo Paolo Rossi e a atuação irrepreensível de Bruno Conti, Dino Zoff, Marco Tardelli, Gaetano Scirea e todos os outros.

Sem os brasileiros - quer dizer, sem aqueles que jogaram o mais refinado futebol dos 24 que se apresentaram na Espanha - a 12ª Copa do Mundo seguiu em frente. Além da Itália, três outras equipes européias passaram às semifinais: a Polônia, depois de superar a Bélgica e a URSS; a França, primeira do grupo em que estavam também a Áustria e a Irlanda do Norte; e a Alemanha Ocidental, que eliminara a Inglaterra e a Espanha. Nas semifinais, a Itália, com novo moral, venceu a Polônia por 2 x 0; e a Alemanha, após um empate de 1 x 1 no tempo normal - e um dramático 2 x 2 na prorrogação de meia hora - impôs-se à França por 5 x 4 na decisão por pênaltis.

A grande final, em 11 de julho no Estádio Santiago Bernabéu, em Madri, teve merecida vitória italiana sobre os alemães, diante da sua torcida embandeirada, o aplauso da sua imprensa e os olhos umedecidos do velho presidente Sandro Pertini, que viajara de Roma à capital espanhola para incentivar seus bravos bambini. Três a um foi o marcador (na véspera, os poloneses haviam vencido os franceses por 3 x 2 e conquistado o terceiro lugar). Nesse desfecho todo, ao Brasil só restou um tímido e pálido consolo: pela primeira vez um juiz seu, Arnaldo César Coelho, era honrado com a escolha para apitar uma final. O que fez sem brilho, mas com correção.

Artilheiro
Paolo Rossi (Itália), 6 gols
Nome completo: Paolo Rossi
Nascimento: 23 de setembro de 1956, em Prato
Clubes: Juventus, Como, LaneRossi Vicenza, Perugia, Milan e Verona

Sempre será lembrado pelos brasileiros como o responsável pelos três gols que determinaram a queda da seleção de Telê Santana na Copa de 1982. Curioso que, até aquele jogo, o atacante não havia marcado nenhum na competição. Fato típico na carreira cheia de oscilações do jogador. Apareceu como fenômeno ao ser artilheiro do campeonato italiano com o LaneRossi Vicenza, justamente na temporada em que levou o pequeno clube ao vice-campeonato. Depois, foi envolvido no escândalo do "totonero", loteria esportiva clandestina italiana que manipulou o resultado de várias partidas. Foi suspenso por três anos e só jogou a Copa de 1982 porque teve sua pena reduzida.

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