MÉXICO - 1986
E Telê teve mais uma chance...


Campeão:
Argentina
Vice:
Alemanha Oc.
Ficha técnica
Sede: México
Países inscritos: 119
Participantes: 24
Gols: 132
Média de gols: 2,53
Média de público: 46.210
O ano de 1985 marcou o retorno à Seleção de Telê Santana, o responsável direto pelo momento mais alegre que o futebol nacional experimentou desde 1970 e também pela maior tragédia. Ao perder de 3 x 2 para a Itália na Copa de 1982, Telê entrou para a história como um daqueles personagens ambíguos que podem ser classificados de heróis ou vilões, dependendo do humor de quem analisa.

Quase tudo pronto para o Brasil embarcar para o México. Era 8 de maio e o Boeing 707 da Varig levaria toda a comissão técnica, convidados, jornalistas e os 24 jogadores. Só levou 23. Na poltrona ao lado de Sócrates, onde deveria estar Leandro, não havia nínguém. O lateral do Flamengo desistira da Seleção faltando poucas horas para o avião decolar. No pouco tempo que restava para o embarque, os amigos Zico e Júnior tentaram demover Leandro da idéia maluca. "Respeitem minha decisão. Não posso ser lateral e não suporto o que o Telê fez ao Renato", explicou. Com seu abandono, um tal Josimar, jogador do Botafogo, estava sendo chamado para ser reserva de Édson, o novo lateral titular.

A Copa começou e, logo na estréia, o Brasil teria uma parada dura no legendário estádio Jalisco, em Guadalajara, o mesmo que testemunhara a maior parte da campanha do tri em 1970. Enfrentar a perigosa Espanha, logo de cara, não era bem o que Telê Santana desejaria. Mas a Seleção não decepcionou. A dupla de zaga transmitiu confiança com o capitão Edinho e o garoto Júlio César, eleito o melhor em campo. O compacto meio-campo, composto por Elzo, Alemão, Júnior e Sócrates, não chegou a brilhar, mas mesmo assim conseguiu envolver a Espanha. E no avante, Careca jogou por ele e pelo companheiro Casagrande.

Duas peças não funcionaram como deviam na engrenagem de Telê: Casagrande e o lateral Édson. Era a deixa para o veloz Müller e a incógnita Josimar irem se preparando para entrar no time. No jogo seguinte, as virtudes se repetiram e os erros voltaram a acontecer. A magérrima vitória contra a Argélia por 1 x 0 aumentou o volume de críticas contra o time de Telê. Müller e Josimar eram empossados no time titular para a última partida da primeira fase contra a Irlanda do Norte. Era o início da semana Josimar. Com uma patada da intermediária, o novo lateral ofuscaria Careca, autor dos outros dois gols na vitória de 3 x 0. Só se falava no golaço de Josimar e no destino que fizera com que ele fosse convocado na última hora.

O Brasil terminara em primeiro lugar no grupo e pegaria a Polônia nas oitavas-de-final. A Seleção Brasileira começava a dar show. Menos pelo resultado de 4 x 0 contra os poloneses e mais pela facilidade com que a bola saía dos pés de Sócrates, passava por Müller, chegava até Careca. E também pela volta de Zico, que entrara na metade do segundo tempo e parecera nada sentir. Mas de novo Josimar era o tema central. Outro torpedo, só que agora precedido de dribles curtos e quase sem ângulo. O reserva do reserva Josimar já estava em todas as seleções dos destaques da Copa.

A maldição dos pênaltis
A tabela reservava mais uma pedreira para Telê Santana. Para chegar até a semifinal, o Brasil teria que derrotar a França, uma das favoritas ao título. Os franceses começaram um tanto sonolentos na primeira fase, quando empataram com os soviéticos e venceram Canadá e Hungria. Começaram a despertar na fácil vitória de 2 x 0 contra ninguém menos do que a Itália, campeã do mundo.

Uma euforia sem precedentes contagiou os boulevares de Paris e se alastrou em pouco tempo pela França inteira. "C’est maintenant ou jamais", é agora ou nunca, proclamavam os franceses em acaloradas discussões nas mesinhas de cafés, nas estações de metrô, por todos os cantos. O futebol champanhe vivia, de fato, um grande momento. Campeão europeu e medalha de ouro nas Olimpíadas de Los Angeles de 1984, o time empolgava pelo estilo alegre de jogo. O maestro era, é claro, Michel Platini, os solistas, Giresse, Genghini, Tigana e Rocheteau e ainda havia talentosos prodígios como Papin e Stopyra.

Apesar de experiente, o time de Platini tremeu no início do jogo contra o Brasil. Tomou o primeiro gol de Careca logo na saída e por pouco não levou uma chuva de gols nos minutos seguintes. Com o tempo, porém, foi acalmando e numa bobeada da defesa brasileira, no finalzinho do primeiro tempo, Platini empatou a partida. Mais tranqüilos, os franceses foram equilibrando a partida que parecia se encaminhar para a prorrogação. Era dos craques que dependia a fé do Brasil. E Zico, que entrara aos 26 do segundo tempo, carregava a aura de que, ao pisar no gramado, conduziria o Brasil à vitória. Aos 28, ele deixou, com um lançamento genial, Branco na cara do gol. Pênalti. Quem bateria se não Zico, o predestinado? Na hora, não passou pela cabeça de ninguém, nem do mais pessimista, que o jogador poderia estar frio, sem o ritmo da partida.

Zico, o grande Zico, toca fraco, indefinido, como se buscasse, sem conseguir, o canto esquerdo. O jogo acabou naquele instante para o Brasil. Abalado, até foi uma sorte chegar aos pênaltis sem tomar um segundo gol francês na prorrogação. Nas penalidades não poderia dar mesmo outro resultado. Sócrates desperdiçaria sua cobrança. Depois Platini ainda também erraria, mas Júlio César, por ironia um dos melhores zagueiros da Copa, não converteu a sua penalidade. O tetra estava novamente adiado.

Dinamáquina emperra
Enquanto a França sepultava o Brasil, os outros favoritos iam avançando aos tropeços. A Argentina passou a primeira fase sem mostrar futebol suficiente sequer para chegar às quartas-de-final. A Alemanha passou raspando e se classificou com uma vitória, um empate e uma derrota. A exceção era a Dinamarca, que confirmava as expectativas e lembrava demais o "Carrossel Holandês" de 74. O time de Laudrup venceu a Alemanha, a Escócia e "pulverizou" o Uruguai. Ou existiria um outro verbo para definir o ato de aplicar 6 x 1 em plena Copa num bicampeão mundial? Depois disso, vieram as oitavas-de-final. E o inexplicável.

Tudo indicava que a "Dinamáquina" repetiria a boa atuação contra a Espanha. Os escandinavos entraram em campo sem sentir a pressão e até abriram o marcador. Não se sabe bem por que, a máquina perdeu potência, começou a exibir um comportamento estranho e fundiu. O centroavante espanhol Butragueño fez 4 gols, Goicochea mais outro e a Dinamarca estava fora da Copa. A Espanha cairia no jogo seguinte diante da limitada Bélgica.

Maradona vence para o povo
França e Bélgica estavam nas semifinais e restavam duas outras vagas. A Alemanha penou para conseguir a sua ao vencer o México na disputa de pênaltis. Já a Argentina chegou à semifinal sem sofrimento. Pelo contrário. Os sul-americanos saborearam o doce sabor da vingança. O duelo das quartas contra os ingleses não era apenas um jogo de futebol. As feridas da Guerra das Malvinas, quatro anos antes, ainda estavam abertas. Vencer a partida, para o povo argentino, seria uma forma de dizer que as Malvinas eram argentinas e não se chamavam Falklands.

Se fosse perguntado de que forma gostaria de vencer os ingleses, o mais velhaco portenho talvez respondesse: com um gol de Maradona driblando todo o time da Rainha e com um outro roubado. E assim foi. O primeiro foi de Maradona, com a mão, e o segundo entrou na galeria dos gols mais bonitos de todos os tempos. Maradona arrancou do meio-de-campo e driblou todos os ingleses que cruzaram a sua frente (seis ao todo, incluindo o goleiro). Para os argentinos, a Copa bem que poderia acabar por aí. Mas Maradona ainda teria mais para aprontar. Na semifinal contra a Bélgica, fez dois gols, um deles driblando três zagueiros.

E na grande final, contra a Alemanha que eliminara a França, Maradona não fez propriamente um gol. Após o empate de 2 x 2, o pequeno gênio deixou Burruchaga na frente de Schumacher, à vontade para marcar. Maradona, ou melhor, a Argentina conquistava a sua segunda Copa do Mundo. Poucas vezes na história do futebol um único homem havia feito tanto por sua equipe.

Artilheiro
Lineker (Inglaterra), 6 gols
Nome completo: Gary Winston Lineker
Nascimento: 30 de novembro de 1960, em Leicester
Clubes: Leicester City, Everton, Barcelona-ESP, Tottenham Hotspur e Nagoya Grampus Eight-JAP

Centroavante oportunista, foi considerado um símbolo de fair-play (nunca recebeu cartão por falta cometida). Sua grande temporada foi em 1985-86, quando marcou 40 gols em 42 jogos pelo Everton, o que lhe valeu a titularidade na seleção inglesa que foi à Copa do México e o título de "Jogador do Ano". Sempre respeitado na Inglaterra pelo seu comportamento fora de campo, hoje Lineker é um dos comentaristas mais importantes da TV britânica.

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