| ESTADOS UNIDOS - 1994 |

Países inscritos: 146
Participantes: 24
Gols: 141
Média de gols: 2,71
Média de público: 68.991
A maldição da zaga
O Brasil desembarcou no aeroporto de San José, Califórnia, quase um mês antes da estréia com um time escalado: Taffarel, Jorginho, Ricardo Gomes, Ricardo Rocha e Branco; Dunga, Mauro Silva, Raí e Zinho; Bebeto e Romário. Os críticos argumentavam que faltava criatividade na equipe. Raí já não era mais aquele, sobretudo após uma irregular primeira temporada no Paris Saint-Germain. Bebeto e Romário jogavam isolados na frente. Parreira sabia de todos esses problemas, mas apostava suas fichas nos avanços dos laterais e confiava demais na segurança da defesa.
Na primeira fase, o Brasil despachou Rússia (2 x 0) e Camarões (3 x 0) e empatou com a Suécia (1 x 1) tomando um único gol em três jogos. O tormento de Parreira não era nem na defesa, protegida brilhantemente por Dunga e Mauro Silva, nem no ataque, onde Romário deitava e rolava. O problema era no meio-de-campo mesmo. Zinho e Raí, nem por um átimo lembravam os jogadores que eram em seus clubes. E não havia muito o que fazer. No banco, os reservas para a posição eram o meia defensivo Mazinho e o enigmático Paulo Sérgio, que até hoje deve se perguntar por que mesmo foi convocado.
O sorteio dos grupos favorecera, também, o time da Colômbia. Afinal, os Estados Unidos eram o cabeça-de-chave mais fraco, a Romênia não metia medo em ninguém e a Suíça, apesar da boa campanha nas Eliminatórias, também não se constituía num bicho-papão. Mas quando a bola começou a rolar, as coisas começaram a mudar. Os romenos liderados pelo meia Hagi impuseram aos colombianos um surpreendente 3 x 1 e os americanos fizeram, sem sombra de dúvidas, uma partida que nem o Tio Sam, em seus mais delirantes sonhos megalomaníacos, poderia imaginar.
Numa quente tarde da Califórnia, no Estádio Rose Bowl lotado, os Estados Unidos jogaram o que não sabiam. Teve de tudo: o gol contra de Escobar (que morreria assassinado por torcedores fanáticos logo depois sua volta à Colômbia), a bicicleta fantástica do zagueiro americano Balboa que, por alguns centímetros, não entrou para a história das Copas, o segundo gol do rápido Stewart e a inesperada festa dos americanos em cima de um candidato ao título. O Grupo A, enfim, acabou se transformando numa manada de zebras: a Colômbia decepcionou, os Estados Unidos brilharam e a Romênia terminou em primeiro do grupo alternando exibições brilhantes com partidas bisonhas.
No grupo da Alemanha, com sede em Chicago, não houve surpresas. O time de Mathaus se classificou com a Espanha eliminando Coréia do Sul e Bolívia. Apresentou muito pouco para quem se credenciava como um dos principais favoritos. A mesma decepção se registrou nos Grupos E e F. No E, com sede em Nova York e Washington, a Itália acabou em terceiro classificando-se atrás de México e Irlanda. No F, disputado no calor de 45 graus da Flórida, a burocrática Holanda até ficou em primeiro no grupo, mas só conseguiu o intento porque a Bélgica perdeu no último jogo para a Arábia Saudita.
O futebol mais vistoso da Copa estava pintando, na verdade, bem longe da Flórida e de Chicago, mais precisamente na costa leste e na sede de Boston. De um lado, os alegres nigerianos seguiam a trilha iniciada por Camarões nas Copas de 82 e 90 e mostravam que o futebol africano merecia mais respeito. Do outro, a Argentina apresentava uma equipe brilhante. Na primeira rodada, a Nigéria humilhou a forte Bulgária com um convincente 3 x 0 enquanto os argentinos goleavam os gregos por 4 x 0. No encontro entre as duas forças, deu Argentina por 3 x 1, mas ficou a certeza de que as duas seleções ainda iriam muito longe. Foi quando se deu a tragédia.
Na ótima Argentina sobravam craques como Batistuta, Redondo, Caniggia, Simeone e Chamot. Mas, de alguma forma, Diego Armando Maradona, mesmo tocando pouco na bola, era a alma do time. Parecia que a constelação de craques reverenciava Dom Diego. Só executava jogadas maravilhosas porque Maradona estava por perto. Todos sabiam que, como num passe de mágica, se a criatividade lhes faltasse, sempre haveria Maradona por perto. E, na véspera do último jogo da primeira fase, veio a bomba.
Maradona fora flagrado no exame antidoping com substâncias proibidas em seu organismo e estava fora da Copa. A efedrina achada na urina de Dieguito vinha de um remédio que Maradona utilizava por indicação do seu preparador pessoal, Daniel Cerrini, para perder peso. Abalada, a Argentina perderia suas duas partidas seguintes contra Bulgária e Romênia. O time foi eliminado dando a impressão de que poderia ter saído dos Estados Unidos com a taça na bagagem.
Xô, zebras
A sucessão de surpresas da primeira fase acabou criando uma tabela um tanto esquizofrênica nas oitavas-de-final. Brasil, Alemanha, Itália e Holanda passaram com algum aperto para a fase seguinte. A Alemanha suou para vencer a Bélgica por 3 x 2, a Holanda venceu o Irlanda por 2 x 0 e a Itália só conseguiu eliminar o fantasma da Nigéria na prorrogação. Se para sobreviverem os italianos precisaram como nunca de Roberto Baggio, autor dos gols contra os africanos, o Brasil tinha em Romário o seu salvador da pátria.
Nas oitavas, a partida era contra os donos da casa justamente no 4 de julho, o Independence Day. Não havia motivo para pânico. Só que deu tudo errado. O time estava apático, Jorginho não acertava um só cruzamento, Bebeto cismava que era dia de matar o goleiro Meola com o seu voleio característico e Romário não estava bom de pontaria. Para complicar, no final do primeiro tempo, Leonardo deu um cotovelaço no meia Tab Ramos e foi expulso. Até que, aos 28 do segundo tempo, Romário parte do meio-campo, deixa quatro americanos para trás e larga Bebeto na cara do gol. O Brasil estava nas quartas-de-final para enfrentar a Holanda.
Deu Branco
Nas quartas-de-final, os alemães mandariam os búlgaros para casa; Brasil e Itália chegariam às semifinais sem problemas; e a Romênia tinha leve favoritismo sobre a Suécia. Sem jogar bem uma só partida em toda a Copa, a Alemanha permitiu a virada dos búlgaros depois de estar vencendo por 1 x 0. A Suécia, apesar de ter apresentado no restante da competição muito menos do que a Romênia, venceu nos pênaltis e passou para a semifinal. A Itália, sempre na base do sofrimento, venceu a Espanha no penúltimo minuto do jogo pelos pés de Roberto Baggio.
Faltava o Brasil, que já sentia a falta de Leonardo, suspenso por quatro jogos e portanto fora da Copa. Com ou sem dores lombares, o gaúcho de Bagé, Branco, precisaria entrar em campo e ainda tratar de arranjar fôlego para neutralizar as avançadas do veloz holandês Overmars. Branco fez muito mais. Na melhor partida da Seleção em toda a Copa, Branco acabou marcando o golaço que decidiu o jogo. Depois de estar vencendo por 2 x 0, a defesa brasileira permitiu que os holandeses empatassem a partida. A patada atômica de Branco, numa cobrança de falta, credenciou o time de Parreira para a semifinal contra a Suécia. Aí foi a vez de Romário, com seu 1,68 m, decidir numa cabeçada certeira em meio aos gigantes suecos. Baggio também fazia a sua parte contra os búlgaros marcando os dois gols da vitória.
Brasil e Itália se enfrentariam, a exemplo da final de 70 e da tragédia do Sarriá na Espanha, quando o mágico esquadrão de Telê Santana foi eliminado. Se apenas a razão falasse, não haveria temores do lado brasileiro. O time estava completo, a defesa esbanjava segurança, Romário andava nos cascos. Os sufocos que o Brasil passou foram gerados quase sempre pela falta de pontaria. Em nenhum momento, em toda a Copa, o time de Parreira correu riscos, esteve na iminência da derrota.
Sem mostrar nada além de garra, o técnico Arrigo Sacchi não podia contar na final com Tassotti suspenso, Costacurta machucado e ainda tinha seus maiores talentos Baggio e Baresi completamente baleados. Seria um risco colocá-los na final e Sacchi arriscou. Baresi até que conseguiu correr e foi um dos melhores do nervoso 0 x 0. Baggio se arrastou em campo. Do lado brasileiro, Romário não repetiu as atuações anteriores. Parreira até tentou com a entrada de Viola evitar a malfadada disputa de pênaltis, mas o corintiano teve seus quinze minutos de glória no segundo tempo da prorrogação, mas não marcou o gol do tetra. Nos pênaltis, o destino não abriu mão de ser cruel. O herói Baresi jogou a bola na arquibancada. Massaro, um dos melhores do jogo, perdeu o pênalti e Baggio, logo ele, atirou a bola por cima da trave. Era o tetra chegando exatamente da mesma forma que o Brasil perdera a Copa de 86 e outras tantas competições internacionais.

Nascimento: 8 de fevereiro de 1966, em Plovdiv
Clubes: CSKA Sófia, Barcelona, Parma, Al-Helal-ASA, Kashiwa Reysol-JAP e Chicago Fire-EUA
Fez com Romário uma das duplas de ataque mais talentosas e encrenqueiras da história do Barcelona. Em 1985, Stoichkov tinha apenas 19 anos e iniciou uma briga generalizada na final da Copa da Bulgária entre CSKA e Levski Sófia. Foi suspenso pela federação búlgara por um ano. Foi o principal comandante da histórica campanha da Bulgária na Copa de 1994.
Nome completo: Oleg Salenko
Nascimento: 25 de outubro de 1969, em Leningrado (atual São Petersburgo)
Clubes: Zenit Leningrado, Dínamo Kiev, Logroñés-ESP, Valencia-ESP, Rangers-ESC e Istanbulspor-TUR
Salenko estabeleceu dois recordes na Copa de 1994: foi o maior goleador em uma única partida de Mundial (5 contra Camarões) e o único artilheiro de Copa cuja seleção não passou da primeira fase. Porém, sua carreira não foi muito além desses feitos. Nunca se consolidou na seleção russa (fez cinco partidas e um gol, excluindo a Copa de 94) e nos clubes por que passou. Também tem a curiosa marca de ter atuado uma vez pela seleção da Ucrânia antes de defender a Rússia.