FRANÇA - 1998
Pesadelo na final dos sonhos


Campeão:
França
Vice:
Brasil
Ficha técnica
Sede: França
Países inscritos: 170
Participantes: 32
Gols: 171
Média de gols: 2,67
Média de público: 46.639
Sessenta anos depois, a França voltava a ser sede de um Mundial. Desta vez, um evento esportivo verdadeiramente digno do nome nestes tempos de globalização. Em 1938, em sua terceira edição e às vésperas da II Grande Guerra Mundial, apenas 14 países participaram da fase final da Copa, praticamente uma disputa entre seleções dos continentes europeu e americano. Em 1998, ao contrário, números grandiosos deram o tom da 16ª edição da Copa: ao todo 32 países classificaram-se para a fase final, com representantes dos cinco continentes.

Para organizar evento de tal dimensão, o escolhido foi Michel Platini, um dos maiores jogadores franceses de todos os tempos e astro da seleção de seu país na década 80, quando despotavam craques como Tiganá e Giresse. Como dirigente, exibia com as pessoas o mesmo fino trato que tinha com a bola em sua época de jogador. E acalentava um sonho: realizar o maior Mundial que o globo já havia presenciado e assistir na grande decisão à França se confrontar com o Brasil, então os atuais campeões do mundo. E, claro, ver a Seleção Francesa sagrar-se campeã com todas as honras. Um final dos sonhos, sem dúvida, para a última Copa do século. Uma final para nunca ser esquecida pelos franceses.

Além do número recorde de participantes, a Copa da França foi marcada por algumas inovações, tanto na forma de disputa quanto nas regras. As 32 equipes classificadas foram divididas em oito grupos de quatro times cada, com apenas os dois primeiros colocados de cada chave se classificando à fase seguinte. A partir daí, nas oitavas-de-final, a disputa passou a ser na forma de eliminatórias simples, mais conhecida por "mata-mata". E, pela primeira vez, as prorrogações tiveram a morte súbita - a partida acaba quando um time marca um gol, o chamado "golden gol".

Sem Romário e Giovanni
"Vocês vão ter de me engolir!" Sem meias palavras, era assim que Zagallo tratava de responder aos seus críticos depois de ter assumido o comando da seleção tetracampeã mundial, em substituição ao sempre ponderado Carlos Alberto Parreira. Com a conquista nos Estados Unidos, em 1994, o Brasil, pela sexta vez em sua história, não precisou passar pelas Eliminatórias. Sem se preocupar com a disputa por uma vaga, a Seleção desfilava suas estrelas pelos gramados do mundo e acentuava cada vez os prognósticos de favoritismo.

Às vésperas do Mundial, no entanto, um episódio abalaria um pouco a tranqüilidade do grupo. Herói indiscutível do tetra, Romário foi cortado da delegação por contusão já na França. O baixinho marrento chiou – justamente, diga-se – contra a decisão da comissão técnica. Antes de o time estrear na Copa, no dia 10 de junho, contra a Escócia, o atacante já estava defendendo o Flamengo pelos gramados do Brasil.

Apesar da vitória por 2 x 1, gols do volante César Sampaio e Boyd (contra), a estréia brasileira fez uma vítima. O meia Giovanni, que havia iniciado como titular, é sacado do time para a partida contra o Marrocos e nunca mais voltou a vestir a amarelinha no torneio. Em seu lugar, para o restante da disputa, Leonardo, o mesmo que, atuando ainda como lateral-esquerdo, havia sido expulso por ter dado uma cotovelada no americano Tab Ramos quatro antes antes. Com esta mudança, o Brasil passou fácil pelos marroquinos: 3 x 0, gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto.

Contra os noruegueses, apesar de já classificados às oitavas, um susto: perdeu de 2 x 1, de virada. Bebeto marcou primeiro. Tore Flo empatou, aos 37min do segundo tempo. Quando o jogo se encaminhava para o seu final, o lance polêmico: Júnior Baiano segurou a camisa de um adversário na área. O árbitro americano Esfandiar Baharmast assinalou o pênalti, convertido por Rekdal. As TVs de todo o mundo, no entanto, não conseguiram captar a imagem da penalidade máxima. Desta forma, os protestos de todos os brasileiros ao redor do mundo foram inevitáveis. No dia seguinte, as fotos estampadas nas capas dos principais jornais confirmavam o pênalti grosseiro de Júnior Baiano. Menos mal que a Seleção já estava garantida nas oitavas-de-final.

Na fase de mata-matas, passou sem problemas pelo Chile, fazendo 4 x 1, com gols de César Sampaio (2) e Ronaldinho (2); Salas descontou. Nas quartas-de-final, saiu em desvantagem diante da Dinamarca, do craque Laudrup, mas teve força para reverter: Jorgensen marcou no primeiro minuto de jogo; Bebeto empatou, aos 9 minutos do primeiro tempo, e Rivaldo, aos 25 do primeiro tempo, virou. No segundo tempo, Laudrup, aos 5, voltou a igualar o marcador, e Rivaldo, de novo, selou a vitória.
Antes da final dos sonhos, a batalha contra a Holanda nas semifinais. Mais uma vez os holandeses no caminho dos brasileiros, Aliás, um velho trauma do Lobo Zagallo desde os idos de 1974. No último confronto em Mundiais, em 1994, no entanto, um gol de Branco, em cobrança de falta, havia posto fim ao trauma de enfrentar os “laranjas”. Mas, mais uma vez, uma vitória sofrida, suada, com direito à prorrogação, mas sem “golden gol”. Depois do empate em 1 x 1 (gols de Ronaldinho e Kluivert), nos 120 minutos, a disputa por pênaltis, sempre uma loteria. O Brasil confirmou sua cobranças com Ronaldinho, Rivaldo, Emerson e Dunga. Pela Holanda, apenas Frank de Bôer e Bergkamp acertaram; Cocu e Ronald de Bôer desperdiçaram. Final: 4 x 2 nas penalidades. O Brasil carimbava o passaporte para a final.

Mestre Zidane
Lideradas pelo maestro Zinedine Zidane, a França desde o início se credenciou ao título em casa. Na primeira fase, venceu facilmente seus jogos contra Dinamarca, África do Sul e Arábia Saudita. Nas oitavas-de-final, no entanto, penaram para despachar, na morte súbita, um aguerrido Paraguai, do técnico brasileiro Paulo César Carpegiani, onde despontavam craques como Arce e Gamarra.
Nas quartas-de-final, travaram dura batalha contra os italianos. Depois do 0 x 0 nos 120 minutos de bola rolando, avançaram às semifinais na disputa por penalidades máximas. Na semifinal, uma vitória mais tranqüila sobre a surpreendente Croácia, do artilheiro Davo Suker, que marcou o primeiro gol do jogo, mas os franceses viraram com dois Thuram: 2 x 1.

Decepção espanhola
Entre as seleções favoritas ao título na França, a maior decepção, sem dúvida, foi a Espanha. Depois de cumprir campanha irrepreensível nas Eliminatórias européias e com um elenco repleto de grandes jogadores, como o goleiro Zubizarreta, os zagueiros Nadal e Hierro, o meia Luis Enrique e o atacante Raul, a Fúria chegou a ser apontada como forte candidata a levantar a taça por ninguém menos do que o Rei Pelé. Logo na estréia, no entanto, a primeira decepção: cairia, de virada, por 3 x 2 diante da Nigéria. Depois, empate sem gols com o Paraguai. Apenas contra a Bulgária deu mostras do que poderia ter feito mais cedo: 6 x 1. Mas acabou ficando de fora das fases decisivas, com Nigéria e Paraguai avançando.

Enfim, o sonho
Doze de julho de 1998, Stade de France, Saint–Dennis, Paris. O sonho – a final entre França e Brasil – já tinha local e hora para acontecer. Uma festa para os franceses antes mesmo do apito final. Para o técnico Carlos Alberto Parreira, presente na tribuna de honra do estádio para acompanhar a decisão, os franceses “já estavam satisfeitos só de estarem na final”. Pouco antes do início, chegou a súmula do jogo com as escalações. Na do Brasil, constava o nome de Edmundo, no ataque, em vez do de Ronaldo. Todos correram em direção a Parreira para saber o que teria acontecido. O técnico tetracampeão do mundo e amigo de Zagallo era o reflexo de um país inteiro: atônito diante de um grande mistério.
Horas antes da final, começava o pesadelo para Ronaldo e todos os brasileiros. Então com 21 anos, o atacante havia tido convulsões, por motivos até hoje não esclarecidos, na concentração da Seleção, deixando todos os seus companheiros preocupados. Já nos vestiários do estádio e com a escalação já confirmada, Ronaldo conversou com Zagallo e os médicos, garantiu que estava bem e pediu para jogar, no que foi atendido pelo treinador.
Com a bola rolando, percebia-se um time inteiro, não apenas Ronaldo, apático, sem vibração e visivelmente preocupado. Em um lance mais agudo, Ronaldo trombou com o goleiro Barthez e os jogadores brasileiros, com o semblante carregado, correram para acudi-lo. Ronaldo levantou, tomou fôlego e voltou a campo. Mas o estrago já estava feito. Com o emocional em frangalhos, o Brasil se tornou presa fácil da França. Logo aos 27 minutos do primeiro tempo, Zidane abria o placar. Aos 47, Zidane ampliou. Petit, aos 47 do segundo, fechou a maior derrota dos brasileiros em um Mundial. Ensandecidos, milhares de pessoas tomaram a Place de La Concorde e a Avenida Champs Elysées, comemorando o título até o dia 14 de julho, data em que os franceses comemoram também a queda da Bastilha. Depois do sonho, festa.

Artilheiro
Suker (Croácia), 6 gols
Nome completo: Davor Suker
Nascimento: 1º de janeiro de 1968, em Osijek
Clubes: Osijek, Dynamo Zagreb, Sevilla-ESP, Real Madrid-ESP, Arsenal-ING, West Ham-ING e München 1860

Habilidoso, foi uma das estrelas da geração da Iugoslávia campeã mundial sub-21 em 1987. Ainda defendeu as cores iugoslavas em algumas partidas adultas, mas ficou marcado mesmo por seu papel no renascimento do futebol croata. Sua melhor fase foi na segunda metade da década passada, quando ajudou o Real Madrid a se tornar campeão europeu e mundial.

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