A antevéspera da Copa do Mundo
O sonho do tamanho do mundo

Jules Rimet, a taça e o presidente
da federação uruguaia, em 1930

A bordo do Conte Verde - o confortável transatlântico que o levava de Villefranche a Montevidéu, naquele 21 de junho de 1930 -, Jules Rimet acariciava a taça de ouro. Era uma estatueta de 30 centímetros de altura e 4 quilos de peso, representando uma Vitória alada, cujos braços erguiam sobre a cabeça uma copa de base octogonal.

"É um rico troféu, monsieur", observava Maurice Fischer, o gordo e simpático húngaro com quem Rimet dividia o camarote. "Mais que isso, meu caro Maurice. Mais que isso...", respondia Rimet. De fato, para Jules Rimet, o incansável dirigente francês, agora com a honra de presidir a Fedération Internationale de Football Association (FIFA), mais que um rico troféu, uma peça valiosa ou uma obra de arte, a taça de ouro era um símbolo. Nela, resumia-se o maior sonho da sua vida: o Campeonato Mundial de Futebol. Fischer, vice-presidente da FIFA e amigo de Rimet, bem o sabia. Mas talvez não soubesse que aquela taça, como o próprio sonho, tinha uma longa história. Uma história que valia a pena conhecer.

Nascido em 26 de outubro de 1863 - numa histórica reunião realizada à luz de velas na Taberna Freemason, em Great Queen Street, Londres -, o futebol tivera um discreto começo de vida, praticado apenas nos colégios e em alguns clubes ingleses, segundo as regras não muito precisas da The Football Association, o organismo oficial que o regia em todo o país. Para que se tenha uma idéia, basta lembrar que o primeiro jogo internacional da história só seria disputado nove anos depois daquela reunião à luz de velas: Escócia 0 x 0 Inglaterra, em Glasgow, na chuvosa tarde de 30 de novembro de 1872.

Mas, a partir do último quarto do século passado, o futebol começara a se espalhar pela Europa. Já em 1872, graças a um grupo de marinheiros ingleses que o levara ao porto de Havre, o jogo chegara à França. Em 1873, já era conhecido na Dinamarca. Em 1879, na Suíça. Em 1880, na Bélgica e na Áustria e assim por diante.

Pouco a pouco, também, o esporte descobrira novos continentes. Em 1880, ainda que sem despertar muito interesse, chegara ao Canadá. Em 1882, ao Uruguai. Em 1895, os argentinos - que desde 1864 viam os ingleses bater sua bolinha no campo muito fechado do Buenos Aires Cricket Club - haviam fundado sua própria federação. E, no mesmo ano, Charles Miller, um paulista nascido no Brás, voltara da Inglaterra com duas bolas de couro, um par de chuteiras, camisas e calções, disposto a ensinar aos brasileiros a grande novidade que aprendera por lá, como aluno da Bannister Court School. Com aquelas bolas, Miller organizaria as primeiras partidas em terra brasileira.

Empenho e Sacrifício
O futebol, portanto, se universalizara. Em fins do século passado, já se haviam tornado freqüentes, na Europa, os jogos entre seleções nacionais. Tais jogos não tinham caráter oficial nem chegavam a despertar no torcedor os ardores patrióticos tão comuns naquele 1930. Mas nem por isso deixavam de ter lá os seus encantos. Geralmente, duas federações combinavam, por carta e com duas ou três semanas de antecedência, um amistoso entre suas seleções representativas. Essas seleções eram armadas às pressas, uma delas viajava de trem dois dias antes do jogo e tomava o trem de volta na manhã seguinte. Tudo era feito assim, na base do improviso, sem qualquer publicidade.

As federações nacionais - 100% amadoras - enfrentavam, então, inúmeros obstáculos à realização desses jogos: a precária comunicação entre cidades de países diferentes, a escassez de meios de transporte, o interesse reduzido do público pelo futebol e os gastos necessários para as viagens e hospedagens. Tudo isso exigia, de dirigentes e de jogadores, muito empenho e algum sacrifício.

Foi o holandês Karl Hirschmann quem primeiro pensou num organismo internacional para congregar todas as federações nacionais já existentes. Homem de visão, o que ele tinha em mente era o próprio campeonato mundial, sonho, portanto, que não nasceu com Jules Rimet, mas com um obscuro comerciante de Amsterdã, apaixonado por futebol. Hirschmann, como qualquer homem bem-informado, sabia que desde 1872 as seleções da Inglaterra, Escócia, Irlanda e Gales disputavam, todos os anos, uma valiosa taça instituída pela The Football Association. Essa taça - conhecida simplesmente pelo nome de Cup - era tão importante que o próprio primeiro-ministro, representando a rainha Vitória, costumava entregá-la ao capitão da Seleção campeã.

Em Amsterdã, Hirschmann, cada vez mais impressionado, ia sabendo, pelos jornais londrinos, das incríveis histórias que se contavam sobre a Cup: os estádios que ficavam lotados horas antes de cada jogo, os torcedores que se inflamavam nas arquibancadas, as brigas que se repetiam e as equipes sensacionais que disputavam, com técnica e coração, a posse da taça. Hirschmann imaginava o que não deveria ser uma Cup ampliada, com dimensões mundiais.

Pensando nisso, em 8 de maio de 1902, escreveu uma carta a Sir Frederick Wall, secretário da The Football Association, propondo sua adesão a um projeto que tinha por fim o campeonato mundial. Wall, porém, leu a carta com britânica indiferença e não deu resposta. Mas Hirschmann era um homem persistente. No mesmo ano, foi a Paris e conversou longamente com Robert Guérin, presidente da Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques. Este, entusiasmado, encaminhou um projeto a um grupo de jornais parisienses na esperança de que algum deles o financiasse. Nada feito.

No ano seguinte, Hirschmann e Guérin conseguiram o apoio de dirigentes de outros países. Um apoio tímido, é verdade, mas o bastante para que, em 21 de maio de 1904, após uma série de reuniões em Paris, eles finalmente fundassem a FIFA. França, Holanda, Espanha, Suíça, Bélgica, Dinamarca e Suécia foram os países fundadores. Robert Guérin, o primeiro presidente eleito.

De 1904 a 1913, a FIFA realizou, em diversas cidades européias, um total de 11 congressos, todos com vistas à organização de um campeonato mundial. Propostas eram apresentadas, estudadas, discutidas e postas de lado como inviáveis. Um campeonato mundial, mesmo com um número reduzido de participantes, era uma aventura que implicava pesados investimentos financeiros. E ninguém queria correr o risco.

Em 1914, no 12º congresso da FIFA, realizado em Cristiânia, atual Oslo, entrou em cena Jules Rimet. E, com ele, o sonho. Nascido na pequena cidade francesa de Theuley-les-Lavancourt, em 1874, Rimet descobriu o futebol ainda garoto, aos 11 anos de idade, quando a família se mudou para Paris. Na capital, jogou pelo time do subúrbio onde morava e chegou a integrar a equipe titular da escola, mas não tardou a perceber que seu destino não era ser craque. Passou, então, a viver o futebol do lado de fora do campo, a vê-lo, observá-lo, analisá-lo. Mais tarde, tornou-se fundador e, depois, presidente do Red Star. Em 1910, já presidia a Federação Francesa. Em 1913, a convite de Hirschmann, representou seu país no congresso de Cristiânia.

Quando chegou à sala de reuniões, Rimet ficou muito impressionado com o pessimismo dos demais congressistas. Com efeito, a não ser pelo belga Rodolphe Seeldrayers, ninguém ali parecia acreditar que o campeonato mundial viesse a se realizar um dia. Até mesmo Hirschmann, sempre tão otimista, sugeria agora que se deixasse a questão em suspenso e que a FIFA passasse a reconhecer no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos o próprio campeonato mundial. Sugestão aprovada, Jules Rimet voltou a Paris desapontado com a FIFA, que acabara de conhecer.

Obra de um sonhador
Nos cinco anos que se seguiram, enquanto o mundo se agitava numa guerra sangrenta, Rimet acalentava seu sonho. Com a ajuda de Seeldrayers, trabalhava em segredo pelo campeonato mundial. Rimet teve de esperar até 1920, quando a FIFA voltou a se reunir, desta vez em Antuérpia, para então expor seus argumentos: para ele, a idéia do campeonato mundial não devia ser abandonada, sobretudo porque o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos, restrito a seleções amadoras, não representava um autêntico confronto de forças numa época em que o profissionalismo já era reconhecido em grande parte da Europa. Os argumentos de Rimet foram ouvidos e anotados, mas a única vitória que ele obteve, então, foi sua eleição para presidente da FIFA, em substituição ao inglês Woolfall. Era, pelo menos, uma prova do prestígio que já havia conseguido.

O êxito do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris, com nada menos de 25 países participantes e um lucro financeiro de alguns milhares de francos, vinha reforçar os argumentos de Rimet. Por mais três anos, com a habilidade, a perspicácia e a paciência de sempre, ele viajou por vários países da Europa fazendo contatos com outros dirigentes, convencendo-os a se unirem na luta pela realização do campeonato mundial de futebol.

Meils, o francês Delaunay, o alemão Linnemann e o italiano Ferretti foram os quatro maiores aliados que Rimet teve, no congresso de 1927, em Helsinque, quando uma proposta oficial foi apresentada para que se criasse a Copa do Mundo (era a primeira vez que essa denominação aparecia nos textos oficiais). Os quatro dirigentes sugeriam que esta fosse disputada de quatro em quatro anos, a partir de uma data que seria fixada no congresso de 1928, durante os Jogos Olímpicos de Amsterdã. Assim foi feito. Ano escolhido para a primeira Copa do Mundo: 1930. País organizador: Uruguai.

"É belíssima"
Pelo menos três razões levaram a FIFA a tal escolha. Primeira, o prestígio adquirido pelo futebol uruguaio, em toda a Europa, com as conquistas dos títulos olímpicos de 1924 e 1928. Segunda, o fato de o Uruguai comemorar, exatamente naquele 1930, o centenário da sua independência. Terceira, as garantias que a Associação Uruguaia de Futebol dava às outras federações: passagens e estadas pagas, e uma participação nos possíveis lucros. Diante disso, Itália, Suécia, Espanha e Hungria, também interessadas em organizar a Copa, desistiram.

Um ano e meio depois, numa fria tarde de inverno parisiense, Rimet entrava num pequeno estúdio de Boulogne-sur-Seine, perto de Sèvres, e encomendava a Abel Lefleur uma taça para ser disputada nos campeonatos mundiais de futebol. E exigia: "Quero-a em ouro". Lefleur, que não era bem um artista, mas um artesão que trabalhava como assistente no Museu de Belas - Artes de Rodez, assustou-se: "Ouro? Mas, monsieur, eu nunca trabalhei com ouro...". O dirigente não ligou: " Não faz mal, tente".

Consta que Lefleur, nos três meses seguintes, passou várias noites em claro tentando pôr em ouro aquilo que Rimet queria. Um total de 1,8 quilo de ouro puro foi utilizado no trabalho, cujos gastos finais ficaram em 50 000 francos, uma fortuna para a época. Em abril de 1930, Lefleur entregava sua obra-prima a Rimet. Embora muitos criticassem - "...trata-se de um trabalho grosseiro", comentara um dos críticos -, o artesão de Rodez sentiu-se plenamente recompensado com o comentário feito pelo próprio Rimet: "É belíssima!"

Agora, a bordo do Conte Verde, Maurice Fischer olhava para aquele homem de cabelos grisalhos, por quem tinha tanta admiração e a quem a FIFA, a Copa do Mundo e o próprio futebol deviam tanto. A viagem ia chegando ao fim. Dentro de pouco tempo estariam em terra novamente, pisando o solo da hospitaleira Montevidéu. Quanto a Rimet, à medida que o navio entrava em águas do Rio da Prata, sentia que deixava de sonhar para começar a viver uma realidade mágica. E acariciava a taça de ouro.

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