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    O Flu contra os Chávez

    RIO - A Copa Libertadores começa para o Fluminense na próxima terça-feira. No Grupo 4, um adversário aparentemente fácil poderia passar despercebido, não fosse a realidade peculiar que o cerca. Se existe um time de futebol na Venezuela que é íntimo do governo comandado com mão de ferro por Hugo Chávez, este é o Zamora, que irá atravessar o caminho do Fluminense pela primeira vez no dia 14 de março. Sediado em Barinas, estado onde nasceu Chávez e que tem o poder, há décadas, entregue à família do presidente, o clube é, atualmente, presidido por Adelis Chávez, irmão de Hugo.

    Tradicionalmente um time de porte pequeno ou, no máximo, médio num país que não venera o futebol, o Zamora tem razões para afirmar que tanta afinidade com o poder nunca lhe foi garantia de excelência. Mas, coincidência ou não, foi após a chegada de Adelis à presidência que o Zamora conquistou o direito de estrear na Libertadores. E a quantidade de estatais que estampam a marca no uniforme do clube são a definição mais visível do que significa ser, na Venezuela, um clube alinhado com o poder.

    Patrocínios estatais

    O clube fica em Barinas, capital do estado do mesmo nome, a 30 km de Sabaneta, onde nasceu Hugo Chávez. Ainda na infância, ele morou na cidade. Mais do que reduto político do Chavismo, Barinas tem o poder entregue à família. Por dez anos, entre 1998 e 2008, Hugo de los Reyes Chávez, pai do presidente venezuelano, governou o estado. Foi sucedido por Adán Chávez, outro irmão do presidente da república.

    Os dirigentes do clube garantem que o futebol não se beneficia da proximidade com o poder. Mas Barinas colheu frutos. O estádio da cidade, chamado La Carolina, que tinha capacidade para 11 mil pessoas apenas, passou a 30 mil em 2007, com um investimento de US$ 60 milhões. A razão? Receber um só jogo da Copa América de 2007, sediada na Venezuela. O Zamora, rival do Fluminense, vive realidade quase inacreditável. Presidido pelo irmão do presidente, tem em seu uniforme patrocinadores estatais: a petrolífera PDVSA, a companhia aérea estatal Conviasa, o Banco do Tesouro e o Banco do Povo Soberano, além da companhia de bebidas Malta, único apoiador privado. E, mesmo assim, no ano passado devia salários aos jogadores.

    Adelis assumiu o clube em 2009. Era caixa em um banco antes da chegada de Hugo Chávez ao poder. Hoje, é presidente do Banco Sofitasa, que tem capital misto entre estatal e privado. É acusado de corrupção e desvio de verbas públicas, inclusive na reforma do estádio onde o Fluminense vai jogar. Sob seu comando, o clube manteve nas primeiras temporadas o desempenho mediano que o caracterizava. Aos poucos, ganhou o direito de jogar duas vezes a Copa Sul-Americana. No segundo semestre de 2010, foi penúltimo colocado no Apertura da Venezuela. Estava em crise e, mesmo assim, foi campeão do Clausura, no primeiro semestre do ano passado, ganhando o direito de estrear na Libertadores.

    - Não é justo dizer que o clube se beneficia. Pelo contrário. Sempre lutamos com dificuldades. E os patrocínios são compreensíveis. A PDVSA tem atuação em nosso estado. O governo do presidente do país apoia o esporte. O Táchira também tem patrocínio estatal - diz Akram Almatni, gerente geral do Zamora, que se derrete ao falar de Adelis Chávez. - É impressionante como é humilde. É um presidente participativo. Ele se passa como uma pessoa comum, é muito simples.

    Cerca de 25 mil no estádio

    É verdade que outros clubes venezuelanos têm patrocínio estatal. Quase todos em estados governados pela situação. Que o diga o Union Maracaibo, por alguns anos o principal representante do futebol venezuelano na Libertadores, ao lado do Caracas. Em novembro de 2008, Giancarlo di Martino, então prefeito da cidade e aliado de Hugo Chávez, perdeu as eleições para governar o estado de Zulia, onde fica Maracaibo. Venceu Pablo Pérez, opositor do regime. Coincidência ou não, sem patrocinadores, o Maracaibo passou a experimentar uma asfixia financeira. Em 2009, caiu para a Segunda Divisão. Hoje, o futebol profissional está desativado.

    Segundo Akram, é normal que Hugo Chávez tenha "uma simpatia natural pelo Zamora".

    - É o clube do local onde nasceu. O presidente sempre foi esportista. Não sabemos se estará no estádio nos jogos da Libertadores, acho possível que sim - afirmou.

    Controvérsias à parte, o Zamora se prepara para o momento mais importante de sua história. Fundado em 2 de fevereiro de 1977, combina a certeza de suas limitações técnicas com a expectativa por receber clubes como o Fluminense e o Boca Juniors. O elenco que disputará a Libertado$custa US$ 1,5 milhão por ano. É quase o mesmo que recebem, num mês, os três principais jogadores do Fluminense: Fred, Thiago Neves e Deco. O orçamento anual do tricolor representa quase 50 vezes o valor gasto pelo Zamora.

    - Receberemos o Fluminense e o Boca aqui com 25 mil pessoas nos apoiando. Estamos em uma cidade que gosta de futebol. Claro que será difícil, somos uma equipe debutante, jovem. A aspiração é um bom resultado, se passarmos de fase já seria histórico - diz Akram. - O Fluminense tem Thiago Neves, Fred, jogadores de seleção. Chegará aqui tendo jogado mais partidas do que o Boca, com mais ritmo. Será muito difícil.

     

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