Janeth dá adeus às quadras e sonha em "fazer nada"
Por Camila Moreira
RIO DE JANEIRO (Reuters) - Quando desembarcou no Rio de Janeiro para o Pan-Americano, Janeth deu início a uma contagem regressiva. Faltavam cinco jogos para encerrar uma carreira de 25 anos no basquete.
O último dia finalmente chegou nesta terça-feira, e a agora ex-jogadora deu um recado a si mesma: "Janeth, aproveita o momento porque vai ser o último."
O fim não foi com medalha de ouro, pois o Brasil ficou com a prata após derrota por 79 a 66 na decisão para os Estados Unidos. Nada, entretanto, que pudesse tirar o brilho da ala.
Serena, Janeth tentou não pensar em como seria pisar na quadra pela última vez como jogadora. Concentrou-se em dar segurança às colegas mais jovens, para quem agora ela passa o bastão.
"Sempre acreditei que estava no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas", diz a jogadora de 38 anos. "Já chorei, olhei no espelho e agradeci por todos os momentos. Sou emotiva."
Apesar de já estar se preparando para esse momento há tempos, ela admitiu que a terça-feira foi estranha. "Hoje passou mais rápido do que o normal. Acordei tarde, tomei café quase 11h e não almocei. Aí tivemos reunião e viemos para o ginásio. Foi tudo muito rápido."
Janeth era a última remanescente das equipes que conquistaram a medalha de ouro no Pan de Havana-1991 e no Mundial de 1994, além da prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996.
E são exatamente esses os momentos que ela lembra com mais carinho. "Cada um teve uma emoção diferente. Em Cuba eu era muito nova e foi muito emocionante. Já no Mundial tive que decidir algumas bolas e isso me fortaleceu muito", disse a jogadora, que após 25 anos de rotina esportiva já sabe o que fazer a partir de quarta-feira.
"A primeira coisa é descansar, ter mais tempo para mim. E ficar sem fazer nada. Agora posso ter o privilégio de assistir TV até tarde, de ficar de pernas para o ar o dia inteiro."
Foi justamente o cansaço que ajudou Janeth a tomar a decisão de que havia chegado a hora de parar. "Sempre me dediquei ao máximo... e já estou cansada de treinar, treinar. Se pudesse só jogar."
LIDERANÇA
Desde as aposentadorias de Hortência e Paula, Janeth assumiu um papel de liderança na seleção brasileira, algo que ficou mais evidente ainda no Pan do Rio, em que a equipe era formada por jogadoras jovens. A ala, entretanto, evita eleger uma substituta.
"Tem algumas com bastante experiência, como a Adrianinha. A seleção vai jogar num conjunto, que vai ser mais forte que uma ou outra jogadora só", acredita ela.
Apesar de minimizar sua importância como líder na equipe, suas colegas mostram que a confiança nela sempre foi grande e lembram que muitas vezes ela serviu de exemplo.
"A Janeth de estrelismo não tem nada. Ela é de uma humildade tão grande que deixa alguns sem graça. A gente tem respeito por ela sem ela pedir", contou a pivô Êga.
Janeth, que começou jogando vôlei mas viu no basquete a emoção e o desafio de querer se superar a cada momento, conquistou também a medalha de prata no Pan de Indianápolis-1987 e o bronze na Olimpíada de Sydney-2000, além do tetracampeonato da WNBA, a liga norte-americana.
FUTURO
Sua aposentadoria dá início a uma nova era na seleção brasileira, que começa também com um novo treinador, Paulo Bassul, já que Antonio Carlos Barbosa assumirá um cargo de coordenador dentro da Confederação Brasileira de Basquete após o Pan.
"A gente sempre espera que o basquete melhore, e eu acredito bastante que possa melhorar. Tem o Pré-Olímpico para vir, e podemos ultrapassar a próxima barreira, que é classificar para Pequim", afirma ela, garantindo que não volta atrás em sua decisão.
Muito aclamada pelos torcedores em todos os jogos no Rio, Janeth afirma que não ficará longe do basquete. Vai continuar à frente do Centro de Formação Esportiva Janeth Arcain e pode tornar-se técnica ou dirigente.
"Será um ponto e vírgula para começar outra história, outro momento, ainda ligado ao basquete", afirmou.